Desafiámos a escritora Lídia Jorge para uma entrevista com alguém que
conheceu nos seus tempos de estudante universitária e a quem tem
seguido, sobretudo pela escrita: o dominicano Frei Bento Domingues.
Falou-se da essência do ser, do Bem e do Mal, da PIDE e de literatura,
do riso e da alegria. O resultado daria para cinco entrevistas.
Fazer esta entrevista foi uma experiência única.
Nunca fiz uma na minha vida, e provavelmente não voltarei a fazer
outra. Porque aceitei o convite do PÚBLICO? Porque a proposta envolvia o
Frei Bento Domingues, pessoa de quem fui próxima quando era estudante
da Faculdade de Letras de Lisboa e ele frequentava a residência Domus
Nostra, onde eu vivia. Depois, a ligação que fui mantendo com ele foi de
papel. Através de livros e artigos. Ultimamente, através das crónicas
agora reunidas nos dois volumes que motivaram a homenagem que lhe foi
prestada na Gulbenkian. Estive lá entre os seus amigos. Pensei, então,
que reencontrar-me com este homem, para uma fala demorada, seria uma
forma de celebrar o correr do tempo. E assim foi.
Quando,
no domingo passado, surgiu ao alto das escadas do Convento dos
Dominicanos, em Lisboa, de braços abertos pelo atraso, foi como se não
houvesse tempo. É o mesmo rapaz que na altura tinha andado por Salamanca
e Roma, tinha sido perseguido e preso pela PIDE, era uma das cabeças
mais arejadas da Igreja portuguesa, então submersa em beatério, e queria
mudar o mundo. O mesmo rapaz que veio das montanhas com o mistério do
eco na cabeça, lia Sartre e São Tomás de Aquino.
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