07 junio 2012

Urdimbre


ISTO É O MEU CORPO

A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice, onde se bebe o vinho da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo. Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão, saciados da fome de pão e de beleza. (Frei Betto)

“Isto é o meu corpo” (Mc. 14,22), nos diz Jesus. Ele poderia ter dito: “Esta é minha vida, esta é minha história, eu mesmo...”. Mas diz: “Isto é meu corpo”; e, contido nele, sua maneira de estar na vida e de situar-se nela, seu modo de olhar, de sentir, de estar presente... 
O único recurso de que Jesus dispõe antes de ser preso é seu próprio corpo. Não tem outra riqueza nem outro dom que oferecer. Esse corpo era sua vida, feita doação.
Como o corpo da mulher, capaz de conter e alimentar com seu sangue à criatura que carrega dentro de si, o Corpo de Jesus é um corpo aberto e vulnerado, quebrado e repartido. Constantemente doado.
No encontro com este Corpo podemos nos reconhecer e perdoar mutuamente, criar comunidade, multi-plicar o amor e recolhê-lo para que nada se perca.

Como viveu Jesus em sua corporalidade a relação com Deus e com os outros e como nós somos convidados a viver?
Aqui precisamos encontrar a justa proximidade para nos relacionar com o corpo e estabelecer um vínculo sadio com ele. Afinal, nossas maneiras de relacionar-nos estão configuradas por ele. Não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros que não ocorra em nosso corpo.
O nosso corpo nos pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, nos pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação... O corpo não é só a unidade de nossos membros, mas a presença de nossa pessoa; por ele estamos e somos.
É com razão que se pode falar da sabedoria do corpo. O corpo não sabe mentir. Se desejamos conhecer nossa verdade num momento determinado, o caminho correto não é dirigir-nos à nossa cabeça em busca de explicações, mas perguntar a nosso corpo: “como você se sente?”
Diante de nossa tendência a “fugir” para o passado ou para o futuro, nosso corpo nos traz sempre ao presente. Diante de atitudes de nostalgia ou de ansiedade, a atenção ao corpo nos abre o caminho para viver a profundidade do momento, do aqui e agora, o único que temos realmente ao nosso alcance.
O corpo é o grande aliado na tarefa de ser pessoa, de conhecer-nos e de viver-nos de um modo adequado.

Uma boa concepção do corpo supõe evitar a parcialização, a polarização e a dicotomia e buscar a harmo-nia e a integração. Para ter uma visão e intuição completa do corpo é necessário contemplá-lo em sua totalidade e em sua originalidade: é “meu” corpo; conheço-o e reconheço-o; sei descrevê-lo; não é um estranho para mim.
Com, em e pelo corpo, vivo minha história, caminho pela vida e tenho minha aventura de crescimento e de maturação, de amor e de conhecimento, de encontrar-me com os outros e comigo mesmo, com meus desejos e minhas fobias, minhas alegrias e minhas dores, minhas esperanças e meus desesperos, minhas desilusões e minhas vitórias... Tudo isso está escrito em minha “carne”. Este corpo me limita e me define. Cada corpo é original e irrepetível; o meu também. 
Ele me situa no espaço e no tempo, me separa e me une aos outros; conhece o que é bom e belo e também o que é desagradável e mau.
Meu ser profundo, meu ser essencial se manifesta, se abre para fora através de meu corpo.
Os gestos, o olhar, o tom de voz são autenticamente a transparência do coração. O corpo é o espelho do meu interior.
Não há dúvida que quando nos encontramos com uma pessoa rica em bondade, entrega generosa aos outros, simplicidade e humildade, de coração grande e capaz de perdoar, nos damos conta que seu rosto é luminoso, sereno, cheio de uma beleza única, interior; irradia alegria, serenidade, harmonia, paz...

O corpo é o companheiro inseparável de nosso caminho. É preciso começar por sentí-lo, percebê-lo, escutá-lo. Mas é preciso ir mais longe: podemos afirmar que o corpo se transforma em caixa de resso-nância da “voz de Deus” que nos previne contra caminhos equivocados e nos orienta para uma vida natural e plena.
O corpo é “lugar”  teológico, lugar da manifestação de Deus; neste sentido é morada do divino, habi-tação do Espírito enquanto participa, pensa, sente, deseja, decide.
Quem não escuta nem percebe seu corpo não pode compreender o sentido da vida, do amor, das rela-ções... pois cairá no narcisismo de seu próprio ego.
Não é possível viver feliz sem relações amistosas e próximas com o corpo, para poder entendê-lo e expressar-se adequadamente com ele. Para conhecer-se é necessário acolher o corpo, querer o corpo, observar o corpo, olhar para dentro do corpo com atitude reverente.
Minha própria casa é meu corpo; o templo onde Deus se revela a mim. Só eu posso habitar e possuir meu corpo. Eu me identifico com meu corpo, sem o qual não posso viver. Deus anima meu corpo; mas não pode habitar em mim a graça de Deus sem a colaboração e a abertura de meu corpo.
Eu sou meu corpo animado, com vida e com sentido. Eu decido com meu corpo e graças a ele.

Nosso corpo constitui nossa presença no mundo; a acolhida do próprio corpo nos projeta para uma relação sadia com o corpo do outro.  Segundo Mt. 25,31-43, é o cuidado do corpo do outro que deter-mina nossa relação com Deus (Mt. 25,31-46). O corpo do ferido, do faminto, do preso... tornam-se “terri-tórios sagrados” onde crescemos e nos humanizamos; são os “lugares” nos quais Deus se faz “totalmente, humanamente, concreto para nós”.
 
O corpo é um documento histórico: há corpo burguês e corpo proletário, corpo de cidade e corpo de roça; há corpos explorados e corpos que são só força de trabalho; corpos que são modelos anatômicos; os “corpos empobrecidos” gritam a Deus por justiça, por alimento, por saúde e por novas relações  entre os humanos e o cosmos, gritam a Deus por viver.
O corpo desrespeitado, expropriado e dominado de muitas pessoas, clama a liberdade, a paz, a vida.
O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição.
O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega...

Texto bíblico: 1Cor. 6,15-20  Mc. 14,12-16.22-26

Na oração: Você vive a relação com seu corpo como objeto de suspeita ou como lugar de encontro? Sinta que você é um corpo de argila, mas um corpo que carrega o “Sopro” do Espírito. Procure saboreá-lo internamente. E deixe atuar em você a força da inspiração e da expiração para que todo o seu corpo seja iluminado e plenificado. 
“Tomai, Senhor, e recebei”, toda minha corporalidade, com suas pulsões, seus limites e sua energia profunda. Que não fique nada em mim onde Tu não entres. Nenhum quarto escuro nem fechado que não seja invadido por Ti”.

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